10 de nov de 2014

Aldeir Torres - Abrindo o jogo.

O real tamanho do Vasco


Quer saber o real tamanho do Vasco? Pois o último sábado ofereceu uma bela lição. Bastava saber observar, olhar na direção certa. Não para o campo, onde se via apenas o reflexo do clube que definha, vítima de um interminável processo que mistura desleixo, incapacidade e autofagia. O verdadeiro Vasco se expressava na arquibancada, nas ruas ao redor do Maracanã. Ebulição antes de um Vasco x ABC que, a rigor, não era vida ou morte. Mas se o Vasco não confirmaria a volta à elite com vitória, não seria eliminado se perdesse, se vinha de quatro jogos sem vencer, se não tem um time confiável, então por que foram 50 mil ao Maracanã? Foram enviar uma mensagem a quem cuida e a quem, a partir desta terça-feira, cuidará dos destinos do clube. Querem ver um Vasco que saia da inércia. Mais do que o magérrimo 1 a 0 no ABC, graças a um gol num pênalti estabanado feito por um rival primário que jogou meia partida com dez, a grande vitória foi mobilizar novamente um gigante. Não foi o clube que mobilizou a torcida. Foi a sua gente que saiu de casa para tentar tirar o Vasco da paralisia.


Vale lembrar que quem marcou o jogo para o Maracanã foi a polícia. Justamente porque este Vasco autodestrutivo de hoje, em seu eterno processo eleitoral, transformou São Januário, o maior símbolo do clube, numa terra de ninguém, onde grupos se digladiam pelo poder. Quem diria, virou perigoso até para um vascaíno andar em São Januário. Por linhas tortas, funcionou. Pela primeira vez, um jogo do time nesta Série B mexeu com a cidade. Mostrou um Vasco que ainda pulsa. A Segunda Divisão era, até ali, jogada com uma naturalidade assustadora, uma alarmante sensação de pertencimento àquele ambiente.  Quase 50 mil pessoas ignoraram um cenário que, convenhamos, era mesmo desolador. A começar pelo campo. O elenco tem nomes com certo peso, jogadores que já viveram dias e competições mais gloriosas. Difícil dizer se é esta a explicação. O fato é que, se não é possível acusa-los de desleixo, também é obrigatório reconhecer que não fazem da Série B, do resgate do Vasco, uma questão de vida ou morte. O time joga, tenta vencer, mas falta alma. Por outro lado, justiça se faça, olhemos o que ronda este elenco. O interminável processo político engessou um clube que se tornou incapaz de planejar o futuro e governar o presente. Os erros seguidos de gestão fizeram o time jogar toda a Série B com salários atrasados. Beiravam os três meses nesta reta final.  


E tudo isso num ano em que o Vasco conviveria com sua segunda campanha na Série B na história. Se a primeira queda causa comoção, a segunda exige ainda mais esforço para não perder a torcida, para criar um ambiente saudável em torno do time. Mas o clube estava anestesiado. E como tudo o que é ruim pode piorar, um Estadual perdido no minuto final, graças a um erro grotesco de arbitragem, acabou de minar o humor de quem se dispôs a ir a São Januário ver o time na Segunda Divisão. O futebol do Vasco virou uma ilha em meio ao caos. Não faltavam sequer os obstáculos estruturais. Treinar em São Januário ora era perigoso, ora maltratava o campo. E foi preciso migrar para o CFZ. Difícil mesmo convencer este elenco do Vasco a tratar a ocasião como algo especial.



O Vasco vai voltar à elite em 2015. Mas dizer que cumpriu sua obrigação na Série B é ser benevolente demais. Seu dever era se impor como clube gigante. Ao contrário, chegou às últimas rodadas fazendo contas.  Criou constrangimento a dificuldade com que fez 1 a 0 no ABC naquele Maracanã cheio. Mas ao encher o estádio, talvez tenha conseguido sua primeira vitória real na Segunda Divisão. Mostrar sua verdadeira pujança. Oferecer um primoroso ensinamento a quem for cuidar de seus destinos após a eleição. Quem vencer, terá a missão de governar com a responsabilidade de quem tem nas mãos uma instituição tão importante. Quem perder, terá a obrigação de dar o processo político como encerrado, libertar o clube de um conflito que consome todas as forças. Aos responsáveis pelo futuro do Vasco, nada deve ser mais emblemático do que a imagem do Maracanã no último sábado. O retrato de um clube gigante por fora, mas que definha por dentro.

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