31 de mar de 2014

Aldeir Tôrres - Do limbo à liderança.

As transformações que reconstruíram o Liverpool.


Por tempos, o Liverpool esteve à deriva. Ou em transição, sem saber o que e como mudar. O time que brigava sempre entre os líderes e chegou a duas finais de Liga dos Campeões com Rafa Benitez se perdeu quando o técnico espanhol foi embora. Se foi também a identidade justamente na hora de reformar o time com o envelhecimento de alguns nomes e saídas importantes como a de Fernando Torres.

O clube de Anfield não tinha o dinheiro do Manchester City e do Chelsea nem a identidade do Arsenal e do United. Como não sabia para onde ir, errou muito – como quando gastou 35 milhões de libras em Andy Carrol. Apostou em Roy Hodgson e depois na história de Kenny Dalglish. O time se “britanicou”, enrijeceu e foi no caminho contrário de seus rivais: cada vez mais rápidos, leves e dinâmicos em campo.

O momento da virada de mentalidade veio com a chegada de Brendan Rodgers. Técnico norte-irlandês que trabalhou com José Mourinho e implementou no pequeno Swansea um jogo de posse de bola, domínio do meio-campo, controle do jogo. O time modesto do País de Gales se segurou na primeira divisão sem sustos, em 11º, com a terceira maior posse de bola da temporada.

Como já foi dito aqui, a posse de bola pode ser uma fraude. A não ser que de fato ela queira dizer alguma coisa.


No caso do Swansea, ela queria dizer. E passou a querer dizer também quando Rodgers chegou à Anfield. A seu lado, uma figura fundamental: Rodolfo Borrell, ex-técnico e coordenador da base do Barcelona, primeiro professor de Fábregas em La Masia. Passava pelos dois a missão de devolver ao Liverpool a identidade, colocar um norte e remar nessa direção. Para isso era necessário comprar, vender e revelar jogadores com as características de jogo pretendidas.
Na primeira temporada, o Liverpool tratou de perder a “cintura dura”. O time deixou de ter a sétima posse de bola para ter a terceira. Tentava trabalhar a bola e controlar o adversário. Terminou apenas em sétimo lugar, 28 pontos atrás do Manchester United, campeão.

Não era sinal que estava dando errado. Apenas de que ainda não havia dado certo. Rodgers teve o mérito que talvez seja o mais importante em um treinador: não ficou preso no seu estilo favorito, não se aprisionou e se fez refém. Entendeu o seu grupo, as características que tinha em mãos, e mudar a ideia do que fazer em campo.

Na temporada atual, o líder do campeonato inglês tem apenas a nona maior posse de bola (segundo o WhoScored.com), menor inclusive que na temporada do ‘Dalglishball’. Mas não é um time retrancado, que morre de medo e vive de chutões. Tem o melhor ataque disparado com 88 gols, oito a mais que o Manchester City. O artilheiro Luís Suarez e o vice Sturridge.


Sem a bola, o Liverpool passou a atacar melhor. Se protegendo mais, compete melhor também. Gerrard que se aproximando do final da carreira se transformava no homem mais avançado do meio, sem tantas funções defensivas, passou a ser um primeiro volante, a là Pirlo, para fazer o jogo sair bem organizado.

O líder da Premier League pode até não ser campeão de um torneio que se decidirá com uma bola na trave e gol ou bola na trave e fora. Puro detalhe. O Liverpool é um grande caso de reconstrução, conceitos revistos, amadurecimento do trabalho e convicção de que ajustes são tão necessários como mudanças drásticas. Do time que passou anos sem saber o que queria, até as mudanças pontuais de hoje. Do limbo à liderança.

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