22 de nov de 2013

Aldeir Tôrres - André.

Ex-morador de rua dá a volta por cima e se prepara para virar chef de cozinha no Rio.


As mãos que hoje temperam e fazem sucesso na cozinha de um restaurante no Centro do Rio são as mesmas que já rasgaram sacos de lixo em busca de comida. Em três anos, mudaram os hábitos, o peso e o sorriso no rosto daquele que já viveu debaixo dos viadutos e hoje prepara-se para ser chef de cozinha.

Foi perdendo tudo que Andre Santana se descobriu. Era 2009 — o ano mais marcante de sua vida —, quando o morador de São Paulo buscou emprego em Niterói. Mesmo sem contatos por lá, conseguiu indicação para trabalhar como ajudante de pedreiro em Rio das Ostras. Ao acabar a obra, se viu novamente desempregado. Sem saída e sem um centavo no bolso, foi na rua que achou abrigo.

— Na época da obra, eu dormia dentro da casa que estava construindo. Não tinha dinheiro para outro lugar. De repente, me vi sem casa de novo.
Pelas ruas do Alto da Boa Vista, Andre começou sua perambulação. Dormindo algumas noites em abrigos, em pouco tempo ele já havia se acostumado com a vida de morador de rua e acabou se entregando ao vício do álcool.

— Disputava comida com os macacos. Quando víamos os carrões parando para colocar macumba na rua, já nos preparávamos. Na hora em que a porta se fechava, corríamos todos para a comida — lembra, contando que os animais corriam e roubavam comida dos moradores de rua.

Após um acidente, quando foi atropelado e teve a tíbia esmagada, Andre encontrou Gláucia Xavier. Então funcionária da Secretaria municipal de Assistência Social, ela o encaminhou para um projeto, onde, mesmo sem poder caminhar, como ficou por um ano, ele pôde aprender duas profissões (fez curso de cabeleireiro e cozinheiro) e se inserir novamente no mercado.

— Minha vida começou ali. Voltei a trabalhar e tive forças para lutar. Hoje, assumi várias responsabilidades no restaurante e me preparo para ser chef de cozinha de um novo estabelecimento — conta o chef, que já está há dois anos no restaurante e aprendeu a falar inglês.

Drama começou em São Paulo.


Com tantas reviravoltas, a luta de Andre, entretanto, não começou após sua vinda ao Rio. Há quatro anos, então com 32, ele deixou a casa que estava construindo, na Zona Leste de São Paulo. Viu a mãe vender o imóvel e sumir com o marido, deixando apenas R$ 7 mil para que o jovem sobrevivesse. Apenas com esse dinheiro em mãos, o hoje chef comprou uma nova casa — feita toda de madeira, em uma reserva florestal, sem energia elétrica nem água encanada. Poucos meses depois, uma enchente derrubou o imóvel.

— Precisava tomar banho no rio, era um sufoco. Não aguentava mais morar de favor na casa de parentes. Não tinha mais o que perder e não arrumava emprego nenhum — lembra.

Há poucas semanas, após tudo ter mudado em sua vida, ele reencontrou a mãe.

— Foi por ela que tudo aconteceu. Mas me pediu desculpas e estarei sempre com ela — emociona-se.

‘O Andre foi um dos mais especiais que encontrei’


Depoimento da publicitária Glaucia Xavier, “anjo da guarda” que resgatou André.

“Sempre vi a situação desses moradores de rua e não entendia como ninguém pensava em nada para dar uma chance de futuro para eles. Foi quanto tive a oportunidade de montar o meu projeto. Já encontrei várias pessoas nas ruas. Muitos passaram pelas minhas mãos, mas ele foi um dos mais especiais. De cara, descobri sessenta pessoas. Destas, trinta participaram dos cursos e metade deles estão encaminhados e trabalhando. Muitos conseguiram voltar para suas casas até. A história do Andre é incrível. Encontrei ele muito magro, cheio de ferros no joelho, morando num viaduto. Hoje, vejo esses meninos e tenho muito orgulho. Não de mim, mas da história que eles construíram para eles.”

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