3 de ago de 2013

Tiago Melo

Sangue potiguar no gol da seleção
“Ainda muito novo eu comecei a minha história. Aos sete anos, não esperava que isso virasse uma profissão, era como brincadeira mesmo. Meus pais queriam me dar uma atividade esportiva para eu sair das ruas e consegui um crescimento saudável, sempre juntamente com os estudos, virando profissão em 1999. Hoje sobrevivo do futsal e vivo relativamente bem”, relata Tiago Melo, goleiro da Seleção Brasileira, o potiguar postiço que precisou sair de Natal para realizar um sonho: ser jogador de futebol de salão.

Nascido em São Paulo, mas radicado em Natal, Tiago nota que a diferença quanto à importância dada ao futsal no Rio Grande do Norte e São Paulo é enorme, o que dificulta – e muito - a revelação de novos atletas. “Na verdade o meu sangue é daqui, meus pais são nascidos e criados em Parnamirim. Cresci entre São Paulo e Natal e comecei a jogar fora daqui. Sempre joguei fora. Aqui não vejo incentivo nenhum, é bem diferente de lá (Sudeste)”, lamenta o goleiro.

O pensamento de Tiago é compartilhado por Ana Maria, mãe do atleta, que revela as dificuldades encontradas em sua época e o que testemunha hoje. “O Tiago jogou em um time pobre, onde nós tínhamos que vender pipoca e sanduíche para comprar bola e uniforme. Não tínhamos o apoio de ninguém. Os pais e mães se desdobravam para pagar juiz e quadra para ter os jogos. Se a gente não tivesse feito isso, não teria ido pra frente. Então, eu percebo aqui e vejo as crianças brincando nas quadras sem manutenção. Onde tem futsal eu paro e vejo tanta criança que joga bem e poderia ser aproveitada, mas aqui não tem incentivo nenhum para o esporte”, diz.

O trabalho da mãe do goleiro não para por aí. Além de torcer pelo sucesso do filho, ela ainda apóia os pais que se desanimam com o esquecimento do esporte amador no estado. “Tem criança aqui que se tivesse quem investisse, sairia das ruas e teria condições de ter um futuro brilhante, quem sabe. É muito triste isso, o incentivo aqui é zero e eu digo para as mães que não desistam nunca. Eu mesmo não perdia um treino. Eu saía do trabalho direto para o ginásio. Acho que os pais não devem esperar nada de ninguém, e sim ir atrás mesmo, lutar, levar nas peneiras, brigar pelo sonho do filho”, aponta.
Tiago, que já defendeu grandes clubes como São Paulo, Corinthians e Palmeiras, ainda teve curta passagem pelo futsal da Europa, onde não se adaptou ao ritmo de treinamentos, optando por voltar ao Brasil. “Tive uma curta temporada na Rússia, onde passei seis meses, mas não deu muito certo. Não por causa do frio, mas pela falta de treinamento. As equipes da Rússia treinam uma quantidade menos de vezes e eu senti muito essa diferença em relação ao ritmo de treinamento aqui no Brasil. Decidi, por bem, voltar para me preparar melhor para a seleção. Escolhi tão bem que fui titular no mundial e a gente se sagrou campeão”, comenta.

Para Tiago, um incentivo certo pode render frutos e a dobradinha esporte-escola não deve deixar de existir. “Com o incentivo certo, os resultados aparecem. Saí das ruas por causa do esporte. Vejo no esporte uma oportunidade de crescimento, não só profissionalmente falando, mas crescimento pessoal, claro não deixando de lado a escola que é à base de tudo. Independente do que você vai fazer na vida, nunca pode deixar de estudar, nunca pode deixar de ser correto e o esporte te dá esta disciplina”, afirma.
Com quilometragem de respeito, o goleiro da Seleção Brasileira não esquece da dificuldade de quem quer começar no esporte. “A seleção proporciona várias viagens internacionais, dentre elas o Egito, Japão, Tailândia... Hoje estou em Joinville, Santa Catarina, jogando pela equipe do Krona Futsal, que pertence a uma empresa que investe no projeto do futsal sem prazo para terminar. Minha caminhada foi longa e árdua. Para muitos também é assim. Se querem, vão em frente. Agora estou colhendo os frutos de todo o meu esforço”, declara o goleiro.

Nos dias de hoje, Tiago vislumbra novos planos, incluindo o de cuidar da família e continuar jogando em alto nível por mais alguns anos. “Em 2013 almejo ganhar títulos para a equipe, que ainda não foi campeão da liga nacional. Planejo ainda, além de cuidar da minha família, jogar mais seis anos em alto rendimento com mais um título mundial em 2016, se Deus quiser, com o Pan-americano de 2015 em Toronto no Canadá, já que o futsal já faz parte dos esportes que vão ser disputados. Estes são os meus grandes objetivos”, revela.

Atendendo a um apelo da mãe do goleiro, aí vai um alerta: “Vejo muitos atletas dizendo que parou porque não teve apoio, mas repito: não desista”.

Projeto
Sem esperar pelo governo ou iniciativa privada, Tiago resolveu se mexer e, junto a um amigo, abiu a escolinha Tiago 2, especializada em treinar e formar goleiros. “Foi com uma ideia que surgiu de um amigo meu que é treinador. Tem o Zetti que tem escolinha de goleiro de campo e abrimos em futsal em 2009. A escolinha é dedicada para goleiros de futsal com treinadores específicos e atende a partir de crianças com cinco anos. 

Hoje temos 60 alunos entre 50 crianças e dez adultos. Atendemos em três ginásios em regiões diferentes de São Paulo”, conta. Além de treinar crianças, a escolinha do Tiago também prepara as jóias dos clubes da região. “Ela (escolinha) atende atletas das categorias menores dos clubes de São Paulo. Eles (atletas) treinam nos clubes e fazem outros treinos mais específicos com a gente”, afirma.

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