3 de ago de 2013

Aldeir Tôrres

Felipe “Magão” bom de bola
Das ruas da Zona Norte de Natal para as quadras da Europa, Felipe “Magão” partiu este mês rumo às terras geladas do Velho Mundo. O jogador de futsal potiguar, de 23 anos, vai jogar no F.K. Era-Pack, de Chrudim, cidade da República Tcheca, durante um período de experiência estipulado em seis meses para tentar fazer seu nome fora do Brasil. Felipe é o típico exemplo dos jovens que começam nos calçamentos das ruas de Natal e, para ganhar destaque, são obrigados a mudar de endereço para tentar a sorte.
Só de olhar para Felipe Dayvisson de Freitas já dá para entender porque ele é o “Magão” do futsal. Alto (1,86 metros) e muito magro, seu apelido da época de criança pegou e virou a marca registrada do jogador. “O ‘Magão’ é devido ao meu físico. É tanto que quando eu jogo em Santo Antônio, São Gonçalo, a marca registrada da galera lá é gritar: ‘O Mago! O Mago! O Mago!’. O nome é por causa do meu físico mesmo”, explica, rindo.
Assim como o nome “Magão”, que veio dos amigos que jogavam com Felipe nas ruas, a habilidade em jogar futebol também apareceu por entre o chão de paralelepípedo. Os tempos de pelada com os amigos, Felipe diz que nunca vai esquecer. “A gente até brinca com uns colegas. Falo: quem era eu, jogava ali na rua cheia de lama e hoje jogo em ginásio com ar condicionado e calefação. Isso é importante. Sempre lembro e nunca vou esquecer disso não”, garante.
O ala diz que desde criança já queria ser jogador de futebol, mas a diferença é que em vez de brilhar nas quadras, ele queria fazer a carreira nos gramados. Segundo o atleta, o tempo foi passando, as oportunidades deixadas para trás e quando ele viu já era jogador de futebol sim, mas de salão. Sem espaço em Natal, aos 18 anos teve a chance de ir para o Paraná jogar nas quadras de lá.
Agora, cinco anos depois, o jogador já tem sonhos bem mais altos. Com o desempenho tido nas últimas temporadas e com a ida para a Europa, o seu maior desejo pode se realizar. “Meu primeiro objetivo agora é conseguir meu espaço lá na Europa e conseguir me organizar na minha vida pessoal, minha família, amigos, namorada e estabilizar. Depois disso, com a idade chegando, talvez eu fique jogando aqui em Natal mesmo. Mas meu objetivo mesmo é, enquanto eu tiver idade e disposição, chegar na Seleção Brasileira de futsal”, afirma.
Felipe Magão demonstra ter os pés no chão. O jovem diz que apesar de querer muito vestir a camisa da Seleção, pretende antes ganhar experiência para “não se queimar”. “Queria ganhar bastante experiência e aprender. Acho que tenho muito a aprender ainda pra chegar ao nível de Seleção. Queria chegar no tempo certo, pra não chegar antes e ser só uma passagem rápida com a camisa amarelinha”, revela.
Magão não esconde a ansiedade quando se fala de dois nomes do futsal. Um é Ricardo Sobral, o Cacau, que vai ser companheiro de time na República Tcheca; o outro é Dentinho,  considerado o maior jogador da história do esporte e quem sabe, futuro colega de amarelinha do potiguar. Esses são os grandes ídolos de Felipe.
“Tem dois caras que eu me espelho: o Cacau e o Dentinho. [Jogar ao lado de Dentinho] seria para mim uma coisa inesquecível, como quando consegui a conquista da Taça Brasil e o título individual de artilheiro (na competição). Mas jogar ao lado de uma fera dessas é pra não esquecer mais”, comenta o ala, entusiasmado.
Tudo começou no peneirão
Desde 2001 o futsal faz parte de maneira incisiva da vida de Felipe Magão. Foi naquele ano que ele passou num peneirão do futsal do Colégio Criativo e ganhou uma bolsa para estudar e jogar naquela instituição. No ano seguinte se transferiu para o Colégio Mundial, na Zona Norte, também devido ao esporte. Apenas em 2007 foi que se profissionalizou e enxergou na modalidade uma grande possibilidade para seguir carreira numa profissão. 
Neste mesmo ano ele jogou na equipe do São Gonçalo e foi escolhido o melhor jogador do Rio Grande do Norte. O desempenho de Magão foi tão bom que em 2008 ele foi chamado para jogar no Paraná, mais precisamente no Santa Paula, de Ponta Grossa. Após um ano de estadia por lá, retornou para o estado, quando jogou pela primeira vez pela Seleção do RN, e no selecionado de Macau.
Os primeiros títulos profissionais vieram vestindo a camisa alvinegra do ABC/Art&C. Na equipe, Felipe conseguiu ser campeão da Copa RN, do Estadual, e ainda da Liga Nordeste. Em 2011 a antiga jovem promessa do futsal potiguar retornou ao Macau.
“Pelo Macau fomos campeões da Copa RN, aí fui para o Alecrim de Serra de São Bento, onde fomos campeões estaduais, terceiro da Liga Nordeste e campeões da Taça Brasil”, lembra Felipe Magão.
Na competição nacional, a maior conquista do potiguar até o momento, ele foi artilheiro e escolhido o melhor jogador. “Foi uma conquista grande e eu não esperava me sobressair tanto”, confessa.
Todos esses títulos fizeram muito bem para o currículo de Magão. Chamou a atenção de Ricardo Sobral, vulgo Cacau, jogador e dirigente do F.K. Era-Pack de Chrudim. “Cacau lá tinha conversado comigo e essa conquista na minha carreira foi fundamental pra esse salto que estou dando”, ressalta.
 Sem quadras e incentivo
A realidade de Magão é igual a de muitos jovens que são obrigados a deixar a capital para ir ao interior ou até para outros estados a fim conseguir uma vaga em algum time profissional de futsal, já que, hoje, a cidade não conta com times de futsal em atividade ou participando das principais competições do calendário desta modalidade. 
O secretário municipal da Juventude, do Esporte e do Lazer (Sejel), Luis Eduardo Machado, adiantou que uma das prioridades da atual gestão é justamente tentar sanar esse problema por meio da organização de campeonatos amadores, atualmente quase que extintos, na programação anual esportiva.
Para isso, o secretário afirma que é preciso haver a revitalização de várias praças esportivas que existem na cidade – em entrevista a este ao nosso site, o próprio secretário revelou que 90% das praças esportivas da capital estão impróprias ou precisam de reformas. Com os reparos, segundo ele, as escolinhas de modalidades esportivas vão retornar, além dos torneios municipais.
Dentre as praças, o Palácio dos Esportes é uma das mais importantes. O ginásio será revitalizado e modernizado, com a instalação de um piso novo, espaços específicos para deficientes e outras melhorias interiores. As obras, segundo o secretário, estão orçadas em R$ 1,1 milhão.
Mas atualmente o maior palco esportivo da cidade é o Ginásio Nélio Dias. Atual sede da própria Sejel e precisando de alguns reparos, há muito tempo a estrutura não recebe um evento esportivo. “Precisa de reparos emergenciais: luminárias, pintura, o elevador quebrado. Tem que cuidar pra não deixa-lo na pior. Temos que zelar por ele”, diz Luis Eduardo Machado, referindo-se ao ginásio.
Pivô do time daqueles que mais sofrem com esta situação, Felipe Magão, que conhece bem a realidade local e de fora do estado, indica ainda outro problema. Para ele falta apoio da iniciativa privada. Ele diz que o investimento é pouco e os clubes muitas vezes não tem dinheiro pra investir pela falta de empresários ajudando.
“Falta muito da parte dos empresários. Não tem investimento nenhum. Eu senti muita diferença quando fui pro Paraná. Lá a imprensa toda, segunda ou sexta-feira antes dos jogos, está em cima, registrando o momento dos times. E aqui não tem essa divulgação. O futsal aqui é tratado como amador”, reclama.

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